Ou melhor, sobre
homossexualidade. Sobre A MINHA HOMOSSEXUALIDADE.
Daí que eu cortei o cabelo. Cortei
não, raspei. Num moicano a
kind different. But, for me that’s ok. O problema foi a família. Ou
melhor. Certas pessoas da família.
O fato é que o corte é recente, eu
sou de pouco me lixar pra o que as pessoas vão achar do que eu faço ou deixo de
fazer e isto tem se tornado muito mais evidente nos últimos tempos e, exibida
que sou, logo postei milhares de fotos do meu brand new hair nas redes sociais.
A minha tia viu. A minha tia que me importa, digo. Melhor: a única pessoa da parte
materna da família que teve a dignidade de tentar conversar comigo sobre “este
momento da minha vida tão pouco comum, porém passageiro, mas que ela estava
disposta a compreender e ajudar a superar”.
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| Humm.. not, hein! |
Bom ela viu e se disse “decepcionada”
com a minha atitude. E isto eu soube pela prima-quase-irmã, filha dela, que,
lindinha que é, me preparou pros momentos de tensão avisando do estado de ira e
reprovação no qual a mãe dela se encontrava.
Eu, que tenho fogo no cu, resolvi
ligar já tarde da noite “só pra atormentar” e acabei em discussões filosóficas
com a tal tia sobre “a essência da pessoa”, “os direitos de ser” e o livre arbítrio
versus sociedade. No resumo da ópera, ela deixou claro que não achava que “aquela
era eu” - WHAT!?, que eu estava “passando por uma fase rebelde na tentativa de mostrar
algo que eu achava que era, mas que na verdade não era” porque, afinal de
contas, ela me conhece desde as fraldas e “sabe que eu não sou assim”... e tudo
isso cutucou não o fato de eu ter feito o caralho a quatro com meu cabelo, mas
a suposta aceitação que ela tem das minhas escolhas.
Hoje eu sou uma pessoa de voz
muito mais firme pra dizer o que eu acho, o que eu sinto, o que eu penso... até
porque, tudo hoje é mais consistente e tem mais embasamento nessa minha
cabecinha. O tempo me deu isso..
Mas voltando. A gente conversou,
não chegou a lugar nenhum... só ao fato de que ela não concordava “com esse
jeito que eu estava tomando” e aí eu fui arrumar casa de fone no ouvido,
cantarolando e sorrindo, tentando não pensar no assunto, até que o cansaço
bateu, a graça murchou, o sorriso desfez... e não teve como não pensar: eu
acreditava mesmo que ao menos ela me aceitaria, que, de tudo, algum dia eu
ainda iria passar a noite de natal com ela e de mãos dadas com a minha esposa,
com todo o resto da família me olhando torto, me engolindo à seco, mas com ela
me olhando com naturalidade. Eu acreditei nisso. Até agora.
Cortei meu cabelo a dois dias
e, apesar de termos nos esbarrado várias vezes pela casa nesse tempo, só hoje, quando
precisei ir ao quarto da minha mãe pegar o telefone sem fio.. só hoje ela
notou. E sabe aquela cara que a gente faz quando tá na casa de um conhecido,
com o sujeito do lado e a gente abre a panela de arroz e tá estragado? Foi essa
a cara que ela fez.
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| Algo como essa cara da querida Torlone. |
Não importa o que ela falou depois. Não importa mesmo. Eu
não espero nada além de poder estar longe dela o quanto antes, mas a minha
tia... eu achei que ali, que nela, residia uma família com a qual eu pudesse
contar. Não. Tá errado. Eu posso contar. É que acreditei que algum dia ela
iria me aceitar de verdade, sabe... parar de achar que isso era uma coisa
passageira e parar de insistir pra eu também acreditar nisso.
Daí eu pensei, sabe, naquele
mundo de sonhos que eu construo sempre que encontro com a mulher que escolhi
pra minha vida... a casa na árvore, o balanço, a cozinha, o futuro... e quando
eu pensava nisso, eu pensava na gente se visitando no final de semana, na mesa
cheia e eu tendo ali na minha frente aquela mulher que sempre foi o meu ideal
de mãe, que sempre foi muito mais minha mãe que a minha própria, o colo pro
qual eu corria quando não tinha meu pai por perto. E tudo isso foi ruindo na
minha cabeça e doeu pensar que vão ter menos vozes ecoando pela casa no
domingo.
Acho que porque sempre fui
sozinha, sempre quis uma casa cheia. Casa pra mim precisa ter vida eclodindo em
cada fresta, sons ululantes de rádio, playlists de computador, telefone tocando,
gente falando, cachorro, gato e pelicano fazendo algazarra... tudo ao mesmo
tempo. E agora eu sei que não vai ter ela. Não sempre. Não de uma forma
natural, como quem visita o casal hétero. Caiu a ficha. E doeu. A gente fica
longe das pessoas e esquece o quanto pode se magoar. A gente idealiza e monta
um outro alguém em cima de quem essas pessoas realmente são.
Desculpa, tia... mas eu gosto de
buceta. Vai ser bem ruim não te ter sempre por perto, porque eu achei que ia.
Eu queria você lá pra ver meus filhos crescerem, mas se pra você é demais a
minha cabeça raspada, o meu jeito meio macho e a minha felicidade ao lado de
uma mulher incrível e cheia de qualidades, tudo bem... eu te respeito. Me
respeita também, ok?
Você ainda é a mãe que eu nunca
tive.
E eu ainda sou lésbica.